Cuiaba (MT), 26 de outubro de 2020 - 07:09

Artigo

26/08/2020 11:39

Cuiabá é a soma de todos os seus bairros

Estava lendo o último texto do Julier sobre o poder transformador da leitura e lembrei de Milton Santos.

A lembrança ocorreu quando ele citou Machado de Assis, outro grande brasileiro negro.

 

Milton Santos foi um extraordinário brasileiro (nascido em Brotas de Macaúbas, 3 de maio de 1926 – São Paulo, 24 de junho de 2001) que infelizmente é pouco conhecido no Brasil. Foi geógrafo, escritor, cientista, jornalista, advogado e professor universitário.

 

Um brasileiro que como Machado de Assis obteve destaque internacional. Seus  trabalhos, em diversas áreas da geografia, são  conhecidos e reconhecidos internacionalmente, em especial nos estudos de urbanização do Terceiro Mundo.

 

Foi um daqueles intelectuais com extraordinária capacidade de antecipação. Já em 1990.

 

previu que nossas cidades iriam se transformar em metrópoles corporativas. Disse que " ... temos agora,  no caso das cidades maiores de um país,  verdadeiras metrópoles corporativas. (...) Na cidade corporativa, o essencial do esforço do equipamento é primordialmente feito para o serviço das empresas hegemônicas; o que porventura interessa às demais empresas e ao grosso da população é praticamente o residual dos orçamentos públicos". Essas cidades corporações geram segregação socioespacial.

 

Todo Cuiabano (que como eu já passou dos 40) sabe do que estou falando, pois nos últimos 20 anos Cuiabá se transformou e se dividiu.

 

A capacidade de compra determinou o local de moradia dos nossos cidadãos

A segregação socioespacial  concentrou, em áreas específicas,  determinado grupo social de Cuiabanos.

 

A capacidade de compra determinou o local de moradia dos nossos cidadãos. Similar ao que vem ocorrendo em todas as grandes cidades brasileiras, com a classe trabalhadora sendo empurrada para áreas  periféricas. Áreas do entorno que ainda não despertaram interesses econômicos.

 

Essa divisão não teria maiores consequências se os serviços públicos fossem prestados com a mesma qualidade para todos, mas sabendo que isso não acontece.

 

A família dos trabalhadores, com menor poder aquisitivo, são obrigadas a ocuparem áreas com serviços públicos precários e, muitas vezes, em  habitação  irregulares. Do outro lado, famílias abastadas moram em áreas valorizadas e com maior atenção dada pelo Estado.

 

Sei que vivemos sob a égide do sistema capitalista de consumo, onde infelizmente somos medidos pelo saldo de nossa conta corrente. Não sou ingênuo e sei que não é possível mudar essa tendência de distanciamento da população trabalhadora. No entanto esse distanciamento não pode ser justificativa para serviços públicos de baixa qualidade, pois somente através da atuação do Estado a vida  dos Cuiabanos da periferia poderá melhorar.

 

Essa melhoria virá com serviços públicos mais justos e isonômicos.

 

- Penso que essa desigualdade na qualidade tem raiz na forma de gerir Cuiabá.

 

Alguns podem achar que estou sendo reducionista e simplista demais quando digo que  é mais um problema de concepção do que de orçamento.

 

Na minha opinião, por tudo que tenho visto acontecer nos últimos anos, os atuais gestores não vêem Cuiabá como um todo integrado.

 

Acredito que o primeiro passo que devemos dar na direção da solução do problema é mudar a forma como interpretamos  nossa cidade, pois não podemos continuar olhando à cidade de forma estanque,  analisando o bairro Jardim Itália separado do bairro Doutor Fábio. Cuiabá é na essência a soma de todas as suas partes, os problemas de um local refletem no todo e sua solução, por óbvio, só será possível se pensarmos  a cidade como um todo. Deveremos objetivar sempre uma padronização na qualidade dos serviços públicos, pois a falta e baixa qualidade num bairro afeta todos.

 

Essa mudança de concepção levará a uma mudança na forma de enfrentar os desafios, pois exigirá que os bairros desiguais sejam tratados desigualmente, na proporção de sua desigualdade.

 

A proposta de levar bibliotecas para nossos bairros traz essa mudança de concepção.

 

- Olha os bairros de forma isonômica.

 

Pegando carona na proposta do meu amigo, penso que devemos promover também inserção cultural em nossos bairros mais periféricos. Uma iniciativa que é de baixo custo e de grande retorno, e para ser executada precisaria antes de parceiros do que orçamento. Cultura (cinema, teatro,  música...) é bem de consumo de primeira necessidade. O grupo de Rock Titãs já canta há muitas décadas que

 

"A gente não quer só comida. A gente quer comida. Diversão e arte".

 

Sei da enormidade dos problemas dos nossos bairros, mas a cultura transforma as pessoas e aumenta a felicidade.

 

- Já imaginaram se em cada bairro de Cuiabá existisse um Coral e/ou grupo de teatro? Os Cuiabanos seriam mais felizes, tenho certeza.

É tempo de aceitar que Cuiabá somos todos nós, Independente de onde moramos.

 

Marcos Viana é empresário.

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