Cuiaba (MT), 29 de setembro de 2020 - 05:05

Artigo

16/09/2020 10:19

O fogo aumenta nossa desesperança

Vivemos na região central do Brasil, onde o clima, predominantemente tropical, proporciona o inverno seco. Por  isso, naturalmente, de junho a setembro as chuvas são cada vez mais escassas.

 

Em meio a um ano turbulento com notícias que nos estarrecem a cada dia, nas últimas semanas nos assustamos devido às queimadas nas áreas amazônicas, do cerrado e também do pantanal, ou seja, em todos os grandes biomas que compõem o estado de Mato Grosso.

           

No espaço global, os eventos no mundo natural estão muito além de embates culturais ou ideológicos. Em toda a Terra, os sinais são claros de que as coisas realmente não estão bem, pois os eventos na natureza estão cada vez mais extremados e as consequências são claras para cada um de nós.

           

Cuiabá está a semanas envolta à fumaça, fazendo com que a qualidade do ar torne nossas vidas cada vez mais precárias. A causa dessa baixa qualidade do ar são as queimadas tanto urbanas quanto rurais, destacando as queimadas na Chapada dos Guimarães e no Pantanal.  Farei aqui um breve comentário sobre esse evento em áreas pantaneiras e suas consequências.

           

O pantanal é um dos biomas mais ricos em biodiversidade com um número considerável de espécies e indivíduos. Esse bioma tem sofrido com as queimadas muito além do aceitável em 2020, uma vez que em torno de 20% de toda área foi atingida pelo fogo que consome não só a vegetação mas também proporciona a perda enorme de espécies animais que são originárias desse importante bioma, além disso, as queimadas desgastam o solo, pois causam a morte dos micros seres aeróbicos do subsolo.

 

Para que você, caro leitor, tenha uma ideia, isso corresponde a mais de 2,5 milhões de hectares consumidas pelas chamas em áreas pantaneiras. Segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais), só em 2020 foram detectados mais de 12 mil focos de incêndio na região. É claro que o calor e a formação vegetal seca potencializam as queimadas, no entanto a maior parte delas é provocada pela ação antrópica.

           

Sim, não são as causas naturais que provocam tamanha perda no pantanal, é a ação do ser humano geralmente aliada a uma baixa consciência ambiental e uma ganância sem medida pelo lucro. Essas ações provocam consequências à saúde não só física, mas mental de todos. Cabe uma pergunta a qual  não tenho a resposta: será que isso é o que foi falado como “deixar passar a boiada? ” Estou na torcida para estar errado, porque por detrás da ganância e dos números estatísticos existem pessoas, traumas e lutas por um bioma em processo de extermínio.

           

As perdas e as lutas de 2020 têm o impacto em nossas vidas e isso tem aumentado a depressão e a ansiedade em nossa sociedade. A incerteza quanto ao futuro nos aumenta o medo e corremos atrás de segurança em meio ao colapso global. Lutemos pela vida pantaneira.

 

Frankes Siqueira é doutor em cultura contemporânea e professor.


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