14 de Julho de 2024

GERAL Segunda-feira, 17 de Junho de 2024, 09:08 - A | A

Segunda-feira, 17 de Junho de 2024, 09h:08 - A | A

MÊS DO ORGULHO LGBTQIA+

Bióloga e tatuador enfrentam de maneiras diferentes o preconceito da sociedade

Conheça a história de uma mãe na linha de frente pelo ativismo LGBTQIA+ e as experiências vividas por um homem transgênero

Maria Vitória Ribeiro da Redação

Junho é considerado o mês do orgulho para a população LGBTQIA+, mas por que especificamente este período e de onde surgiu a origem dessa consideração?

O início disso se dá em 28 de junho de 1969 em Nova York, no bar Stonewall Inn. O ambiente tinha como público majoritário, jovens homossexuais e pessoas transgêneros, bem como apresentação de drag queens em sua programação. Levando em consideração as represálias da época, por ser um momento de muitas rebeliões e protestos, eram recorrentes as batidas policiais de conduta violenta no local, ocasionando a prisão de muitos frequentadores. Até que, no dia 28, ocorre uma reação de contra-ataque a essa violência. Portanto, após esse episódio, houve repercussão mundial que tornou, de fato, a Revolta de Stonewall um marco histórico, colocando junho como oficialmente o mês do orgulho e da luta pelos direitos LGBTQIA+, eclodindo Paradas do Orgulho em todo o mundo, desde então.

A Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Mato Grosso acontece no munícipio de Cuiabá desde o ano de 2003, quando era organizada pelo movimento Livre-Mente, primeira Organização Não Governamental LGBTQIA+ de Mato Grosso. Numa combinação de festa e manifestação política, celebram a vida enquanto garantem seu direito a ela. Portando a presença de diversas bandeiras com a inclusão da diversidade sexual e de gênero, há também produções artísticas e corporais.

O evento, além de festejar o orgulho e a liberdade de expressão, reivindica fortemente pautas políticas abrangentes aos direitos LGBTQIA+, reforçando a obrigatoriedade de uma comunidade igualitária, bem como a criminalização da homofobia e transfobia, união civil entre casais homoafetivos, diversidade no conceito de família, e, principalmente, o fim da violência para com as pessoas da comunidade LGBTQIA+ no geral.

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Em 2024, em sua vigésima primeira edição, o evento está marcado para o dia 29 de junho, com o tema “Vote Com Orgulho” e contando com a presença de diversas personalidades atuantes no cenário cuiabano e estadual como um todo, garantindo enfoque expressivo no apoio motivacional e de influência social. Houve também a divulgação da “Rainha da Parada”: a professora Luciene Neves, lésbica e ativista na linha de frente na garantia dos direitos LGBTQIA+, ocupando atualmente o cargo de coordenadora da Secretaria Estadual de causas LGBTQIA+. Além disso, a edição conta com o apadrinhamento da Professora Rosa Neide e do ex-secretário de cultura de Mato Grosso, Jan Moura.

Nesta edição, a concentração será em um local inédito, ocorrendo na Praça Ipiranga a partir das 14h.

Josi Marconi, de 57 anos, é bióloga especializada em gênero e identidade com mestrado em antropologia — fatores que impulsionaram seus conhecimentos em sua atuação na militância.

Conforme Josi, adentrou o ativismo por causa de sua filha mais velha, que é lésbica: “Não queria que ela se sentisse desamparada”, relatou sobre os casos de famílias que não acolhem seus filhos por conta de sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Com isso, a professora resolveu levar esse sentimento de modo externo, sendo fundadora do movimento Mães Pela Diversidade no estado de Mato Grosso. O movimento é formado por matriarcas de famílias pertencentes ao movimento LGBTQIA+, que surgiu para que, além do acolhimento em sua própria constituição familiar, houvesse o acolhimento com os indivíduos desprovidos desse pilar social.

Há 10 anos, o projeto Mães Pela Diversidade vem abrindo a Parada do Orgulho não apenas de Mato Grosso, mas também de outros estados, pois, se expandiu para todo o território brasileiro.

Josi relata que, além da abertura tradicional em Paradas, também são realizadas reuniões — de modo presencial e online — com rodas de conversas, troca de vivências, de conhecimentos e até mesmo de obras literárias que possam agregar no sentido principal do projeto.

Em sua experiência prática no movimento, a professora relata que um dos casos que mais lhe tocou foi quando, ao estar em um momento de lazer, um rapaz que até então pensava não conhecer, a apresentou a um familiar como “a pessoa que salvou minha vida”. O rapaz se tratava de um dos acolhidos pelo projeto que, ao tentar contra sua própria vida, presenciou a receptividade de Josi Marconi, que lhe ajudou e manteve contato por semanas para garantir que tudo ficasse bem.

Sobre uma das maiores conquistas em sua área como ativista, a entrevistada não hesitou em citar o evento de casamento entre pessoas LGBTQIA+ como a maior delas. Contou como participou de maneira proativa da realização dos casamentos, buscando até mesmo parcerias com lojas de vestimentas para casórios, sempre garantindo que aqueles que fossem atendidos, teriam suas escolhas e orientações respeitadas.

Juntamente a isso, Josi expôs que nunca foi fácil, pois “levou muita portada”, se referindo às situações em que os direitos às pessoas LGBTQIA+ eram negados e, até mesmo ela, sofria com o preconceito proveniente da sociedade. Citou que até mesmo sua filha caçula sofreu certo isolamento por parte de pais e mães de colegas quando era mais nova, visto que tinha uma mãe vivamente envolvida com a causa LGBTQIA+.

Todavia, com toda sua bagagem emocional e de experiência, a professora afirma que apesar dos pesares, sua maior alegria ainda é vivida hoje em dia, ao presenciar a Parada do Orgulho com uma multidão de pessoas, felizes, “dando close” e exercendo sua própria liberdade de expressão que lhes é de direito.

Victor Diogo Amorim Lima, de 18 anos, é homem trans e pansexual. Atuando profissionalmente no ramo da tatuagem desde seus 15 anos, Diogo conta um pouco de sua história e reflete sobre o comportamento da sociedade perante a comunidade transgênero dentro e fora do Mês do Orgulho.

Victor relata sobre as partes de seu processo de autodescoberta como uma pessoa trans, relatando que ele “nunca precisou se descobrir, apenas dar ouvidos para si mesmo”.

Entretanto, apesar de sua descoberta e aceitação sobre sua identidade terem sido algo espontâneo, o tatuador expõe as dificuldades por trás de se aceitar, devido à resposta direta da sociedade a isso; aos 15 anos, Diogo fugiu de casa em virtude das diversas agressões e abusos psicológicos que sofria, o que acarretou com que sua rede de apoio fossem seus amigos. Ao sair de casa, a família de um desses amigos o acolheu de maneira imediata, tornando-se assim, sua família adotiva. “Pude assumir quem eu era, quem eu realmente queria ser, que é o Victor Diogo”, o entrevistado afirma.

Em relação à comunidade trans no Mês do Orgulho, Victor fala sobre o pink money e as falsas condutas de aceitação produzidas pelo corpo social e pelo mercado de vendas. “Somos marginalizados o ano inteiro, visto como algo diabólico. No mês da visibilidade a única mudança é o pink money, que as marcas precisam fazer para ganhar atenção do movimento LGBT e principalmente dos trans”, afirmou.

Para Diogo, além das ONGs de acolhimento e ajuda social direta, ser aliado é se impor perante situações de transfobia e não apenas manter o respeito para com uma pessoa transgênero, pois, isso é apenas o mínimo. “Quantas vezes lembro de ver inúmeras coisas acontecendo com pessoas trans na minha frente e as pessoas não fazerem nada”. Diogo conclui reafirmando que, a melhor forma de se mostrar aliado é ajudando a comunidade e às pessoas marginalizadas sem acesso ao mercado de trabalho, por exemplo. “Isso é dar apoio, isso é alimentar nossa base”, finalizou.

Sobre a transfobia em seu dia a dia, Victor relata sobre como isso influenciou até mesmo com sua relação aos momentos de lazer, afirmando que, para evitar situações preconceituosas, como mecanismo de defesa, desde muito novo passou a se isolar e consequentemente se tornar uma pessoa mais “caseira”. O tatuador diz que, apesar de nunca ter sofrido violência física, é possível perceber a transfobia nos mínimos detalhes, desde a forma com que é tratado ao entrar em lojas com até mesmo a forma com que alguns clientes atendidos por ele se portam, alegando que, por diversas vezes, acontece de errarem de maneira proposital seu nome, seus pronomes e o atacarem verbalmente. Apesar disso, Diogo explica que pela tatuagem ser sua fonte de renda, muitas das vezes é forçado a reafirmar sua identidade de forma respeitosa e manifestar seu desconforto de modo com que a pessoa compreenda. Mesmo nunca tendo sofrido agressões físicas, Diogo se certifica de estar sempre atento e preparado “Mato Grosso é o segundo estado que mais mata, pessoas trans e travestis, então imagina como é”, ponderou a respeito dos assustadores índices de violência contra pessoas trans no estado.

Victor Diogo é um homem trans casado com outro homem trans e, durante a entrevista, denuncia a forma com que até mesmo a comunidade LGBTQIA+ consegue de forma minuciosa e, muitas das vezes claras, destilar preconceito com sua relação e a de seu marido, apenas por se tratar de um relacionamento transafetivo. Para ele, o comportamento das pessoas seria imensamente diferente caso fosse um relacionamento entre dois homens cis.

Na mídia e nas representações de pessoas dadas por ela, Diogo reconhece que, em comparação às outras épocas vividas pela comunidade transgênero, houve de fato um grande avanço em questões de representatividade. Todavia, ainda há muito para melhorar, segundo ele. “Hoje temos muito mais respaldo e, logicamente, ainda há muito que se melhorar. Mas acho que precisamos lembrar que, para estarmos onde estamos, muitos de nós, precisaram morrer, tiveram que ir à luta”, finalizou o tatuador.

Segundo o Observatório de Mortes e Violências contra LGBT no Brasil, Mato Grosso está em segundo lugar no ranking de estados com maior índice de mortes violentas contra a população LGBTQIA+, ficando atrás apenas do estado de Alagoas. Com base nestes dados, é possível observar que, entre as causas mais comuns das mortes, está esfaqueamento, disparos com armas de fogo e espancamento.

Em 2020, o Grupo Estadual de Combate aos Crimes de Homofobia (GECCH) da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT) divulgou que Mato Grosso registrou 160 boletins de ocorrência de crimes contra o público LGBTQIA+ entre janeiro e agosto daquele ano, número quase duas vezes maior que o do ano anterior.

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